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É possível ensinar a ser criativo?

Um artigo publicado recentemente na revista Newsweek oferece uma leitura alarmante, onde a chamada principal é que o nível de criatividade (medido por testes Torrance) nas crianças norte-americanas vem baixando desde 1990. De acordo com o artigo, é o nível das crianças pequenas – do jardim de infância até a sexta série – que tem a “baixa mais séria”.

Isso imediatamente nos faz perguntar o porquê. Os principais culpados incluem o fato de as crianças passarem mais tempo assistindo TV ou jogando vídeo-game ao invés de se envolverem com atividades criativas, bem como a falta de criatividade no seu desenvolvimento educacional nas escolas. Resumindo: não existe preocupação, organização ou esforço em nutrir a criatividade.

O artigo da Newsweek chega ainda mais próximo do problema – afinal, a criatividade é a fonte de todas as ideias que nós traçamos, propagamos e divulgamos. As implicações na baixa da criatividade são mais amplas (e mais perigosas) do que somente em relação às ‘artes’. Criatividade é necessária para arquitetar soluções políticas (relações internacionais, saúde), negócios (estratégias de crescimento), técnicas (resolver problemas desconhecidos) e desafios culturais.

Com isso em mente, o que pode ser feito para reverter esta baixa? A criatividade pode ser ensinada? Como foi dito pela Newsweek, as últimas pesquisas em neurociência ajudam a resolver este primeiro quebra-cabeça: como a criatividade funciona em nossos cérebros?

Quando você tenta resolver um problema, se concentra nos fatos óbvios e soluções familiares, para ver se encontra a solução desta maneira, por exemplo. Esta é a fase em que o lado esquerdo do cérebro está trabalhando. Se a resposta não vem, o hemisfério direito do cérebro é ativado para trabalhar junto. As redes neurais do lado direito procuram, então, por memórias remotas que poderiam ser vagamente relevantes. Uma ampla gama de informações distantes, que normalmente são ignoradas, passa a se fazer presente no hemisfério esquerdo, com procura por padrões desconhecidos, significados alternativos e abstrações.

Vislumbrando esta conexão, o lado esquerdo rapidamente se trava nela antes que ela fuja. O sistema de atenção muda radicalmente suas engrenagens, pulando de uma atenção desfocada para uma atenção extremamente focada. Num instante, o cérebro junta essas duas linhas de raciocínio em uma ideia única que vem à superfície da consciência. Este é o momento “Aha!”, normalmente seguido por uma fagulha de prazer quando o cérebro percebe a novidade chegando.

Agora o cérebro tem que evoluir a ideia recém concebida. Ela vale a pena? A criatividade requer constante mudança, saber mesclar lados divergentes e pensamentos convergentes para poder combinar novas informações com antigas e esquecidas. Pessoas realmente criativas são muito boas em colocar seus cérebros em modo bi-lateral, e quanto mais criativas elas são, maior é sua atividade dupla.

Citando exemplos de pesquisas recentes e de avanços feitos em escolas particulares dos Estados Unidos, o artigo mostra que atividades particulares podem, de fato, ajudar a cultivar a criatividade. O que é comum entre programas de sucesso é que eles alternam ao máximo o pensamento divergente com boas doses de pensamente convergente, em vários níveis. Quando o problema é resolvido (por exemplo: como podemos reduzir o nível de barulho causado pela construção do lado de fora da biblioteca?) e aplicado no processo diário da escola, as funções do cérebro melhoram.

Além disso, a pesquisa identificou fatores particulares que colaboram com o ensino futuro, cultivando e encorajando a criatividade:

  • Adultos muito criativos tendem a ser de famílias com características muito opostas. Pais e parentes que encorajam singularidade, mas que ainda fornecem estabilidade. Eles foram altamente responsáveis pelas necessidades das crianças, mas também as desafiaram a desenvolver suas habilidades. Isto resulta em um tipo de adaptabilidade: em momentos de ansiedade, regras claras podem reduzir o caos – mas quando as crianças estavam entediadas, elas podiam ir à procura de mudanças também. No espaço entre ansiedade e tédio, a criatividade floresce.
  • Adultos altamente criativos frequentemente cresceram com dificuldades. As dificuldades em si não levam à criatividade, mas forçam as crianças a se tornarem mais flexíveis – e a flexibilidade leva a criatividade.
  • No começo da infância, alguns tipos distintos de atividades livres são associadas à alta criatividade. “Fazer de conta” ajuda a desenvolver a habilidade de analisar a situação por perspectivas diferentes. Brincar serve de desculpa para trabalhar com pensamentos e emoções desconhecidas.
  • Na escola, a criatividade paracosmos – fantasias de mundos inteiros alternativos – aparecem por volta dos 9 e 10 anos, e é um forte indicativo de criatividade.
  • Pessoas criativas tendem a ter humores e efeitos positivos externados. Não que eles sejam particularmente felizes – contentamento é um tipo de complacência que as pessoas criativas dificilmente têm. Mas eles estão engajados, motivados e abertos ao mundo.

A beleza disto tudo é que a pesquisa deixa claro que a criatividade pode, sim, ser ensinada, bem como o resultado da prática, disciplina, desafios entre os lados esquerdo/direito do cérebro e inspirações. Esperamos que os pais, o sistema educacional e até mesmo as empresas apliquem estas lições da ciência, e pesquisa, para armar as gerações futuras com as ferramentas necessárias para resolver os nossos problemas coletivos, sociais, locais e globais.


Artigo original – PSFK – Can Creativity Be Taught?
http://www.psfk.com/2010/07/can-creativity-be-taught.html

 

Artigo da revista Newsweek – The Creativity Crisis
http://www.newsweek.com/2010/07/10/the-creativity-crisis.html


Via @allysoncorreia, traduzido por @LadyShampoo

 

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